A ILHA DAS COBRAS (2013)

A ILHA DAS COBRAS

Personagens
Andressa
Vanessa
Marta
Lícia
Submissa
Maya
Macho Submissa
Macho Maya
Homem 1
Homem 2
Homem 3


PRÓLOGO

Uma caverna.

(Maya está nua por um longo silêncio; ela é algum tipo de entidade; Andressa entra, a vê, e cai de joelhos extasiada; ela venera Maya enlouquecidamente e chora)

ANDRESSA
Minha mãe!

(Maya canta suave)

ANDRESSA
É a virgem em aparição física!

(sons de serpente; black-out)


CENA I

Um jardim.

(Andressa e Vanessa estão sentadas em um banco; elas estão muito entediadas)

VANESSA
Eu acho que você tá mentindo.

ANDRESSA
Você que sabe.

(silêncio)

VANESSA
Qual era a cor do cabelo?

ANDRESSA
Preto. Como se tivesse passado hena.

VANESSA
Mas não faz sentido porque a Marta disse que...

ANDRESSA
E quem disse que a Marta sabe tudo?

VANESSA
Mas eu acho que ela deveria ser loira mesmo.

ANDRESSA
Quem que disse que ela era loira?

VANESSA
Mas é o que é lógico. Todo mundo que viu ela, viu ela loira.

ANDRESSA
Você prefere acreditar em todo mundo que em mim? Eu tô te dizendo, Van. Por que eu iria fingir uma coisa dessas?

VANESSA
Pode ter sido uma alucinação também.

ANDRESSA
Pare, Vanessa! Eu saberia se fosse. Eu tenho certeza do que eu tô te falando.

VANESSA
Ai, sei lá. Você sempre veio com aqueles papos estranhos, Andressa. Sei lá se eu acredito. (revela) A Marta me disse pra eu tomar cuidado com você, Andressa, tá bom? Ontem. Ela veio me pedir pra eu contar pra ela tudo o que você fizer.

ANDRESSA
O que?

VANESSA
Relaxe. Lógico que eu não vou falar nada.

ANDRESSA
Ela é louca! A gente veio porque quis aqui. Eu tô pagando por essa porcaria toda.

VANESSA
Não se preocupe. Eu não vou contar nada.

ANDRESSA
Que mais que ela disse? Por que ela quer saber?

VANESSA
Eu não sei. Ela só disse que você teve uns problemas antes de vir pra cá. Eu não sei.

ANDRESSA
Olha, os problemas foi aquilo que eu te disse, Vanessa. Eu já te contei tudo.

VANESSA
Eu sei, eu sei. Relaxe. Eu não vou falar nada pra ela.

ANDRESSA
Que louca, essa mulher. O que ela tá pensando?

VANESSA
Talvez ela esteja preocupada só.

ANDRESSA
Preocupada com o que?

VANESSA
Ora, Andressa, daí hoje você vem me falar que viu a Maya! A santa virgem! O que eu vou pensar? Ela tá percebendo alguma coisa. Você sabe que ela é sensitiva, né? Ela até ganhou um prêmio na academia.

ANDRESSA
Vanessa...

VANESSA
Andressa, eu não sei o que você veio fazer aqui. Mas eu vim pra ter uma experiência.

ANDRESSA
Eu também!

VANESSA
Eu também tô pagando - e você sabe que isso aqui é uma fortuna de caro - e eu sinto que você está me fazendo contar a sua história.

ANDRESSA
O que?

VANESSA
Ai, sei lá! Você chega, tem um nome que rima com o meu. Toda vez que alguém te chama eu penso que tá me chamando. Chega toda simpática e cativa todo mundo, e me cativa! E aí você começa com essas profecias idiotas, e visões! Eu não sei!

ANDRESSA
Vanessa...

VANESSA
E aí eu tô ficando como a amiga, sabe. Andressa, esse retiro foi um projeto de vida do meu pai, entende. Eu tô aqui por um propósito.

ANDRESSA
Pois eu também, caramba. Desculpe eu falar sobre as minhas coisas. Não fiquei pedindo que você me seguisse pra cima e pra baixo também.

VANESSA
Pois eu não sei por que fiquei te seguindo!

ANDRESSA
Talvez porque você seja importante pra que eu concretize algo grande! Coadjuvante também é importante pra contar uma história. 

VANESSA
Aff. Você é uma idiota egocêntrica.

ANDRESSA
Ô, buceta do céu. Eu não pedi, Vanessa. Se não quer ser mais minha amiga, tudo bem. Não tem problema.

(silêncio)

VANESSA
Eu senti que era pra eu ficar de lado. Do seu lado, eu digo. Aí é que tá. A gente meio que se força pra contar a história dos outros. Por que? Porque a gente gosta desses outros. 

(silêncio)

ANDRESSA
Talvez existam pessoas que nasçam pra ser coadjuvantes de grandes histórias mesmo. Madalena, por exemplo.

VANESSA
(ela se irrita) E Judas também! (sai)

ANDRESSA
Vanessa! Mas que boceta!

(black-out)


CENA II

Uma jaula.

(Submissa está dentro da jaula; Submissa é algum tipo de animal)

SUBMISSA
(urra) 'Aguá! Aguá!' (pausa) 'Aguá, aguá, aguá'!

(Lícia entra)

LÍCIA
Calma, boceta! Tó. (entrega uma garrafinha)

SUBMISSA
'Bocetá'.

LÍCIA
Isso. Beba logo.

(Submissa bebe)

SUBMISSA
'Gotósa'.

LÍCIA
Né? Bebe tudo que eu tô ocupada.

SUBMISSA
Não! Colo! Colo! 'Agôrá'!

LÍCIA
Chiu! Cale essa boca se não eu te torro!

SUBMISSA
(grita) Maya! Maya! Maya! Colo!
                                                               
LÍCIA
Pare, sua imbecil!

SUBMISSA
(imita com voz idêntica) Pare! Sua imbecil! (ela urra endemoniada) Ó, santa!

LÍCIA
(assustada; chama) Marta! Marta! Me ajude aqui!

SUBMISSA
(voz de monstro) Eu vejo aquilo que você não vê. Eu vejo, eu vejo. Eu sinto uma protuberância roliça na palma da mão, e eu quero isso em dobro.

(Lícia começa a se contorcer hipnotizada)

SUBMISSA
Em triplo! Pêlos em lugares diferentes. O que? O que? O que? O que? O que? (pausa) É a raça. Na raça! No pêlo. São dois. Pra nascer um, precisa de dois. Pra tesão, dois, dois dois, três, quatro, dezessete, boceta! Pêlos semi-cortados roçando na virilha. E a virilha arrepia. E o tesão...

LÍCIA
(com esforço) Marta!

SUBMISSA
Marta! Boceta. Ah! Ah! Aaaah!

(Submissa encara Lícia assustadoramente)

SUBMISSA
Pê-nis.

LÍCIA
(grita desesperada) Marta! (não aguenta as próprias pernas e cai)

(Marta entra)

LÍCIA
Ela tá me deixando louca, Marta! Eu não consigo. Eu não consigo. (chora) Eu amo pênis! 

MARTA
Pare de chorar. Cale essa boca. Levante-se!

SUBMISSA
'Aguá. Aguá'. Colo.

(Marta encara Submissa, que se encolhe com medo)

SUBMISSA
(provoca) 'Caralhô' duro.

(Marta vai num canto e pega uma arma grande; ela vai até a jaula e dá um choque forte em Submissa, a fazendo desmaiar; Lícia sente o choque junto e cai novamente)

MARTA
Levante-se, querida. (ajuda Lícia)

LÍCIA
Quanto tempo mais, Marta? É sempre a mesma coisa. Eu já tô cansada. Ela me pega de surpresa toda vez. É como se eu tivesse com sede... é na carne da boca...

MARTA
Chiu. (pausa) Você sabe no que deve pensar.

(Marta sai)

(Lícia fica em silêncio pensando; ela bebe o resto de água da garrafinha e olha para o corpo de Submissa; Submissa treme inconsciente fazendo Lícia se assustar e sair correndo)

LÍCIA
Ai, cacete! Digo: (se corrige com concentração) Ai, boceta! 'Vaginás. Vaginás'. (sai)

(Submissa geme)

(black-out)


CENA III

A jaula.

(Vanessa entra; Submissa ainda caída)

VANESSA
Ei. Psiu! Psiu! Submissa!

SUBMISSA
(acorda e grita) 'Bu! Bu!'

VANESSA
Chiu! Não grite. Eu queria tirar uma dúvida com você.

SUBMISSA
'Bu'? (ri) 'Bu! Bu, bu, bu!'

VANESSA
Eu sei, eu sei! Eu tô tentando, ok? Tô tentando, mas não é fácil. Tem que ter tempo, tá bom? Eu achei que fosse ser mais rápido procurando ajuda. A Marta me disse que seria fácil de resolver. Eu não sei mais o que fazer! Me tire uma dúvida ao menos.

SUBMISSA
'Duvidá'.

VANESSA
Eu... (pausa) Vai ter jeito mesmo? Eu sei que a Marta diz que eu devo te ignorar, mas por favor. Eu te pergunto com toda a humildade do mundo, Submissa. Se você não sabe a resposta, não invente, por favor. Eu estou desesperada. Eu quero saber se essa luta que a gente tá travando vai funcionar ou não.

(Submissa se levanta; ela chama Vanessa com o dedo para que se aproxime; Vanessa se aproxima receosa; Submissa insiste para se aproximar mais; Vanessa chega bem perto)

(Submissa a beija sensualmente; as pernas de Vanessa bambeiam; ela logo volta à consciência e se arruma)

VANESSA
Entendo. Eu vou tentar só mais um pouco então. Nossa. Obrigada.

(Vanessa sai, Marta aparece por trás de algum lugar)

MARTA
Parabéns, sua filha de uma putinha esperta.

(Submissa gargalha vingada)

MARTA
O choque tá sendo pouco, é isso?

(Submissa se encolhe)

(Marta fica em silêncio pensativa; ela anda de um lado para outro calmamente; ela olha para Submissa e abre a jaula; Submissa se encolhe em um canto; Marta senta-se ao lado de Submissa e a acaricia)

MARTA
(carinhosa) Está tudo bem, Sublinda. A minha luta aqui é pra te destruir completamente. Será como um controle remoto. Eu no comando, e você um jogo de vídeo game.

SUBMISSA
'Bu'.

MARTA
Não adianta o quanto você lute, Subtonta. Você é minha lâmpada mágica pessoal e intransferível. Que realizará meus três desejos. E eu não tenho problemas em dizer que: nem que seja a força! (pausa) Entenda, querida, eu não forcei pra que elas me procurassem e escolhessem vir até aqui. Elas estão até pagando por esse (chacota) tratamento especial com spa e revelações pessoais mais íntimos dos segredos femininos. Elas vieram porque quiseram. (ri) A ilha é aberta para todas as que quiserem se purificar de você, Sub-otária. (ri mais alto) Eu sei domar essa ansiedade dentro daquelas meninas. Eu sei colocar ordem na Submissão! (pausa) Controle hormonal, meu bem. Necessidade sexual é efeito colateral da ansiedade. E eu sou muito ansiosa. 

SUBMISSA
'Aguá'.

(Vanessa aparece escondida; Marta repara de primeira, mas finge não ver e continua falsa)

MARTA
Onde foi parar sua capacidade de distinguir prazer de libertinagem, Submissa? Maya nos deu o prazer, sim, senhora. Nos deu mais que o prazer. Maya nos deu a liberdade de amor próprio. E a capacidade de não se tornar mais uma submissa ao sexo oposto! Ou uma submissa do mesmo sexo, tanto faz. Maya vencerá todas as suas necessidades carnais, Submissa. A necessidade do caralho aqui dentro desse corpo já é um caso vencido. Eu me livrei da porra do seu caralho, Submissa. E com a Vanessa vai ser a mesma coisa.

SUBMISSA
Vanessa sapatão.

MARTA
Não! Eu vou tirar essa endeusificação da boceta da cabeça dela. Isso está tão errado quanto à submissão ao caralho das nossas antepassadas. (pausa) Libertinagem não é coisa divina. As partes baixas tem uma função muito mais espetacular. A de se manterem quietos e limpos. É culpa das partes baixas as grandes guerras, os preconceitos, as descriminações. Mas você perderá essa guerra. O tesão submisso estará vencido e finalmente teremos paz!

SUBMISSA
'Caralhô'.

(Vanessa desaparece; Marta sorri)

MARTA
Logo mais a gente vai se usar, Submaravilhosa. Em pouco tempo.

(black-out)


CENA IV

A caverna.

(Andressa está sentada sozinha)

ANDRESSA
Maya, eu sei que era você. Você apareceu pra mim, não apareceu? O que significou? (pausa) Por que muitos veem a Submissa, e poucos veem você? Eu achei que esse retiro era pra me mostrar algo grande, e não pra me trazer mais confusões e problemas. Eu tenho medo. Por que apareceu pra mim? Por que dizem que você é loira? Era você, não é? Apareça de novo, seja lá o que for isso!

(Lícia aparece)

LÍCIA
Andressa?

ANDRESSA
Ai, que susto, menina! O que você tá fazendo aqui?

LÍCIA
O que você tá fazendo aqui?

ANDRESSA
Eu venho aqui pedir luz.

LÍCIA
Aqui é cheio de cobra, você sabe, né?

ANDRESSA
Sério? E você vem fazer o que aqui?

LÍCIA
A Marta me pede pra levar algumas lá pra dentro.

ANDRESSA
O que?

LÍCIA
Ela usa do veneno pra fazer remédios.

ANDRESSA
Que remédios?

LÍCIA
Sabe aquela vitamina que a gente toma de manhã? Então.

ANDRESSA
Você tá de brincadeira! Que nojo!

LÍCIA
Não fala pra ela que eu te contei.

ANDRESSA
Como assim? É lógico que eu vou falar! Ela faz a gente beber veneno de cobra pra quê?

LÍCIA
Serve como um antídoto contra a Submissa. É tipo pro controle de TPM.

ANDRESSA
Que absurdo! Ela não tinha falado nada sobre isso. Eu achei que era suco de abacate!

LÍCIA
Você sabe como a Submissa é na nossa vida. Não é um tratamento fácil. Eu, por exemplo, era super submissa ao caralho até poucos meses atrás. Puta mesmo. Mas eu fazia de graça. Eu adorava mais do que lasanha. Eu deixava que meus amantes batessem em mim e tudo o mais, me amarrassem, pra machucar até. Eu adorava essas relações. A Marta me salvou disso. Agora só às vezes, quase às vezes a Submissa me atenta, mas eu consigo me manter sã por conta do tratamento funcionar.

ANDRESSA
Você não gosta mais de pênis então?

LÍCIA
Lógico que gosto! Ia gostar de que? Não é pra isso que a gente faz isso, olha lá! A diferença é que eu gosto mais da minha boceta que de homem. Antes, eu pensava só em dar. Dava que nem... uma desesperada! Dava, dava, dava, dava, dava. Tudo o que eu fazia era dar prazer pro caralho de todos os caras que apareciam querendo. Agora não. Agora quando eu der, vai ser um presente que eu estarei me dando pra dentro de mim. Entende? Pensando em mim! O cara vai ter que me chupar sim, vai fazer do jeito que eu quiser também, porra! Entendeu o lance, Dê? (pausa) Claro que eu tô tentando viver assim, né? Às vezes a Submissa me atenta, só às vezes. Mas...

ANDRESSA
(revela) A Vanessa era sapatão.

LÍCIA
Sério? Mentira!

ANDRESSA
Não conte que eu falei.

LÍCIA
Imagina. Mas como assim?

ANDRESSA
Sério. Ela me falou.

LÍCIA
Nossa, eu não sabia que a Marta trabalhava com isso também aqui. Mas é estranho. Não é? Porque o tratamento envolve endeusificar o corpo feminino.

ANDRESSA
Pois é.

LÍCIA
Mas se ela é sapatão como funciona esse tratamento pra ela?

ANDRESSA
Sei lá. Não sei mesmo.

LÍCIA
Porque... porque... se pra gente que quer esquecer e ficar longe de caralhos a Marta diz que devemos viver olhando vaginas e falando de vaginas o tempo inteiro... Isso aqui seria o paraíso pra ela! Ai, eu fiquei meio incomodada agora. Ela tá adorando estar aqui! Que vaca! Como será que funciona o tratamento pra ela?

ANDRESSA
Sei lá. Não me pergunte.

(silêncio)

LÍCIA
E você?

ANDRESSA
Oi?

LÍCIA
Qual é o seu problema?

ANDRESSA
Não tenho nenhum.

LÍCIA
Tá aqui por quê? Aposto que não estava procurando tranquilidade e conforto num spa com revelações pessoais mais íntimos dos segredos femininos.

ANDRESSA
Não. Foi um chamado.

LÍCIA
O que?

(silêncio)

ANDRESSA
Eu nunca dei.

LÍCIA
Calma. O que?

ANDRESSA
Pois é.

LÍCIA
Você é virgem?

ANDRESSA
Sim.

LÍCIA
Mas o que veio fazer aqui então, menina?

ANDRESSA
Eu sou submissa à minha virgindade.

LÍCIA
O que?

ANDRESSA
Brincadeira.

LÍCIA
Ah, nossa, que graça.

ANDRESSA
Eu vim porque achei que devesse vir. É estranho isso. O folhetinho falava de um retiro espiritual para o descobrimento e respeito sexual da mulher. Achei que tivesse a ver com minha virgindade.

LÍCIA
Nossa. E minha luta é manter-me virgem. Eu pensei que só putas e ninfomaníacas passivas que procuravam esse lugar. E agora lésbicas e virgens confusas também? Caramba, tudo muito moderno mesmo.

ANDRESSA
Eu não sou confusa com a minha virgindade, tá? Eu só queria entender um pouco mais sobre mim, sobre as coisas...

LÍCIA

(silêncio)

ANDRESSA
Deixa eu entender uma coisa: a Marta te incentiva a nunca mais praticar sexo?

LÍCIA
Não. Ai, meu deus, todo mundo confunde isso. Ela me ensina a não ser escrava. Entendeu?

ANDRESSA
Ah.

LÍCIA
Eu ouvi dizer que a Marta era uma prostituta de luxo. Ela se testou o tratamento que conheceu com uma monge chinesa e hoje ela domina a Submissa dentro dela facilmente. Ela ainda gosta de caralho, lógico que gosta, não tem como deixar de gostar, mas o usa, ao invés de ser usada. Entendeu?

(silêncio)

ANDRESSA
Eu vi a Maya.

LÍCIA
O que?

ANDRESSA
Eu vi a Maya. Ela apareceu pra mim.

LÍCIA
Mentira sua.

ANDRESSA
Juro.

LÍCIA
Para de brincadeira.

ANDRESSA
Tô falando sério.

LÍCIA
Era loira?

ANDRESSA
Era.

LÍCIA
Não acredito! Então era ela mesmo! Como foi?

ANDRESSA
Ela apareceu pra mim. Nua.

LÍCIA
O que?

ANDRESSA
Peladona. E aí ela não disse nada. Mas era linda. Foi uma experiência sensacional. Eu senti um... um...

LÍCIA
Um o que?

ANDRESSA
Não sei dizer.

LÍCIA
Como assim? Sentia o que?

ANDRESSA
Um fogo.

LÍCIA
Um fogo?

ANDRESSA
Aqui. (ela coloca a mão na virilha)

LÍCIA
Aí? Mas então não era ela, Andressa! Pelo amor da santa!

ANDRESSA
Eu juro! Eu sei que era! Ela deixou claro que era ela.

LÍCIA
Ela nunca deixaria um fogo aí! Isso é coisa de Submissa! Você deve ter se encontrado com a Submissa e ela te confundiu. A Submissa usa de artifícios pra nos enganar, Andressa.

ANDRESSA
Isso foi aqui.

LÍCIA
Aqui? Nessa caverna?

ANDRESSA
Sim.

LÍCIA
Então não era ela mesmo. Ela não apareceria aqui.

ANDRESSA
E apareceria onde?

LÍCIA
Ai, sei lá! E eu que vou saber?

ANDRESSA
Oras, e por que não aqui? Se foi ela quem criou tudo? Aqui também é uma capela natural!

LÍCIA
Cheia de cobras!

ANDRESSA
Eu sei o que eu vi, ok. Eu sei que era a Maya. Ela tem coisa grande pra me mostrar, eu sei disso.

LÍCIA
Tome cuidado. Submissa é astuta.

ANDRESSA
Eu sei que era ela. Eu sei. Ô, menina chata!

(Lícia vai sair)

ANDRESSA
Não vi nenhuma cobra. Não ia levar o veneno?

LÍCIA
A chata tá levando o seu. (sai)

(black-out)


CENA V

A jaula

(Lícia entra e encontra Submissa rindo)

LÍCIA
Tá rindo de que?

SUBMISSA
O que veio fazer?

LÍCIA
Curiosidade só.

SUBMISSA
(gargalha)

LÍCIA
O que foi? Eu tô me fazendo um teste, é isso.

SUBMISSA
Você vai perder.

LÍCIA
Não! Você não me afeta mais.

SUBMISSA
Quer apostar?

LÍCIA
Eu te vejo como mulher, Submissa. Você não vai me excitar.

SUBMISSA
Eu sinto uma protuberância roliça na palma da mão, e eu quero isso em dobro. Em triplo.

LÍCIA
Blá, blá, blá, blá...

SUBMISSA
Quer o quê, caralho?

LÍCIA
Tudo menos isso, no momento.

SUBMISSA
Tem certeza?

LÍCIA
Você está fraca. Eu disse. Eu estou vencendo.

(Submissa tira a calcinha e ela tem um caralho)

(Lícia instantaneamente se apaixona; ela ajoelha longe de Submissa)

LÍCIA
Meu pai.

SUBMISSA
É todo seu, Lícia.

LÍCIA
Meu? Eu... eu... posso?

SUBMISSA
Fique à vontade.

(Lícia corre e abre a gaiola; ela se ajoelha frente à Submissa)

LÍCIA
Seu caralho é lindo.

SUBMISSA
É o que você deseja.

(Lícia prova o caralho devagar)

(Marta entra)

MARTA
Lícia!

LÍCIA
(se levanta rápido) Me desculpe! Me desculpe!

(Marta pega a arma novamente e eletrocuta Submissa; Lícia cai e sofre junto)

(Marta obriga Lícia a beber um líquido de um frasco; ela enfia a cabeça de Lícia entre suas pernas)

MARTA
Cheire. Cheire forte. Sinta isso, Lícia. Esse é o cheiro que você deve aprender. Esqueça aquilo. Você deve dominá-lo, não deixar ser dominada.

(black-out)


CENA VII

O jardim.

(Andressa está sentada entediada; Vanessa entra)

ANDRESSA
Oi.

VANESSA
Eu vou embora.

ANDRESSA
O que?

VANESSA
Eu não tenho cura, Andressa. Não sei o que eu vim fazer aqui.

ANDRESSA
Dizem que a Marta era escrava de caralhos. Ela se curou.

VANESSA
Mas eu sou escrava de buceta. Como ela vai me curar me mostrando mais bucetas e convivendo com vocês aqui?

ANDRESSA
Ela vai achar um jeito. Ela usa de nossos próprios desejos pra nos converter.

VANESSA
Por que está defendendo ela agora?

ANDRESSA
Não sei. Só acho que você não devia ir embora. Eu sinto algo grandioso pra nós duas.

VANESSA
Poxa, qual o problema do vício? Qual o problema da Lícia adorar um caralho? Qual o problema de eu adorar enfiar a cara nas pernas de outra mulher? Eu tenho pensado nisso. Você me fez pensar nisso.

ANDRESSA
Eu? Tudo o que é demais, é problema, Vanessa.

VANESSA
Mas até no sexo?

ANDRESSA
Você quer saber o que eu acredito?

VANESSA
Andressa, o meu problema era social. Eu só queria me livrar dessa loucura de homossexualidade por causa dos outros. Não por mim. Isso foi uma coisa boa que aprendi aqui. A pensar mais em mim. Não sei mais se a libertinagem é coisa de Submissa. Tenho a impressão que elas omitem a verdade que Maya diz.

ANDRESSA
Você quer saber o que eu acho?

VANESSA
Diga.

ANDRESSA
Eu acho que não é errado a libertinagem. A Submissa é vítima de nós mesmas. Eu acho que quem estiver contente em dar e dar e dar e dar pra caralho, não tem problema nenhum. Nenhum problema moral, eu digo. As pessoas ainda julgam as outras pelo número de parceiros. Mas o problema disso, Vanessa, é que como sabemos, como a Marta diz, sexo é sim uma troca de energia importantíssima. E antes de vir pra cá eu já sabia disso. Por isso que eu procurei aqui. E por isso que eu quero aprender mais sobre ele antes de dividir meus fluxos enérgicos com meu parceiro. Ou minha parceira, também.

VANESSA
O que? Você curte?

ANDRESSA
Não sei. Não quero forçar nada. Eu quero aprender mais sobre essa troca maluca, antes de experimentar. Não quero que isso se transforme numa coisa casual de fim de semana. Mas que se por um acaso acontecer de eu chegar a ter uma vida sexual super ativa, eu esteja totalmente entregue e me divertindo e aprendendo com o outro, todos os dias que isso acontecer! E que me respeitem e que eu respeite por igual. (pausa) Você não acredita, mas eu acho que eu realmente vi a Maya. Naqueles segundos que eu estava frente a frente com ela eu consegui compreender algumas coisas. Sabe por que tanto reprimimos o sexo na nossa história, assim como fizemos com a Submissa?

VANESSA
Por que?

ANDRESSA
A Maya não fala com certezas. Ela joga a resposta no vento. E pega a resposta dela quem quiser e a interpretam como quiserem e como puderem. Os homens antigos achavam que ela fosse só homem, sabia?

VANESSA
O que? Sério?

ANDRESSA
Não sabia? E a desculpa para a preservação do sexo foi camuflada. Ainda bem que ela começou a fazer aparições, neste século. Diziam que ele dizia, a Maya, que todos deveriam se privar do prazer. Que todos deveriam manter a Submissa trancafiada eternamente. A Marta faz isso com inteligência porque ela respeita as partes de baixo como se fossem órgãos divinos. Pelo menos me parece isso. Eu acredito que preservar essa divindade vai transformar o ato mais grandioso e importante. Igual o que a Marta diz. Mesmo que eu dê todos os dias da minha vida depois, mas que isso seja com inteligência e prazer. Foda-se o que vão pensar.

VANESSA
A Marta não é cem por cento feliz.

ANDRESSA
Deve ter outras coisas...

VANESSA
Dizem que você só entra em estado de perfeição sexual quando a Submissa fica contente.

ANDRESSA
E com a Marta?

VANESSA
O que?

ANDRESSA
Com a Marta a Submissa é tranquila?

VANESSA
Imagina. A Marta aplica choque nela quando sente tesão fora da hora. Quando ela está nos atacando, eu digo.

ANDRESSA
Minha santa. Tem alguma coisa errada, então.

VANESSA
Além de que faz a gente tomar veneno de cobra todo dia. Você ficou sabendo que aquela vitamina é veneno?

ANDRESSA
Fiquei. Um absurdo isso.

VANESSA
Será que ela sabe o que faz aquele veneno?

ANDRESSA
E se a gente morre? Imagine.

VANESSA
Será que ela sabe?

(silêncio)

(black-out)


CENA VIII

Um quarto.

(Marta está sozinha; ela dorme)

(uma luz introduz Maya como Macho; a voz ainda continua feminina)

MARTA
(ainda dormindo) O que? Quem é você?

MACHO
Você.

MARTA
O que é? O que está acontecendo?

MAYA
Você está dormindo. Não se preocupe. Você lembrará quase nada. Você tem uma pergunta pra me fazer, não tem?

MARTA
Tenho. Mas seus cabelos...

MAYA
Pergunte.

MARTA
Eu quero saber. Era pra você ser loira. Falta muito tempo?

MAYA
Você não trata a Submissa com muito afeto.

MARTA
Você me disse pra ignorá-la.

MAYA
Ignorá-la é diferente de prendê-la e maltratá-la. Tudo o que você pedir, se concretizará. Por mim e por ela. É como uma lâmpada...

MARTA
Mas... e a Vanessa? Ela já gosta de buceta.

MAYA
Faça a mesma coisa. A bissexualidade pode ser uma consequência.

MARTA
Mas eu os quero para mim!

MARTA
Pode ser uma coisa interessante no futuro.

MARTA
Será? Talvez como voyeur. Sempre adorei ver filmes eróticos com dois homens. Ou três. Três homens e uma mulher.

MAYA
Quando estivermos, eu e Submissa, completamente satisfeitas com a transformação, poderemos começar a pensar em resolvê-las. Você está caminhando. Uma mudança, para abrir outras mudanças. Um corpo fechado não muda. Serão dois machos, e um bi. O veneno ajudará na decisão. Quando conseguir que a Submissa inverta os papéis de todas completamente, te daremos o desejado.

MARTA
Completamente? Mas é tão difícil! Devo forçar mais? Usar mais de eletrochoques?

(silêncio)

(Maya desaparece)

MARTA
Buceta de caralho! Volte aqui, sua... sua...! O que mais eu faço? (para si) Quem gosta de caralho, gosta de caralho eternamente.

(Marta acorda calmamente; ela não lembra de nada; ela age como se nada tivesse acontecido)

(por um segundo ela desconfia de algo que lembra; mas logo deixa o pensamento)

(Vanessa entra)

VANESSA
Marta.

MARTA
Sim.

VANESSA
Eu fiz uma decisão. Eu vou ir embora.

MARTA
Nós ainda não terminamos.

VANESSA
Eu sei. Mas estar aqui me abriu a cabeça pra outras coisas. Eu preciso de um tempo pra pensar.

MARTA
Aqui você tem o melhor tempo pra pensar, Vanessa. Esse problema que tem é problema de todos nós.

VANESSA
Como assim é problema de todos nós? Não é problema de ninguém além de mim. E nem sei mais se vejo como um problema.

MARTA
Vanessa, lembre-se de tudo que conversamos. A Submissa vai te atentar, como vejo que conseguiu.

VANESSA
Ela me atenta porque eu preciso dela.

MARTA
Eu não posso deixar você ir embora antes de terminarmos o tratamento.

VANESSA
Eu estou pagando por isso. Eu vou embora.

MARTA
(chama) Lícia!

(Lícia entra)

MARTA
Tranque a porta.

(Lícia sai)

VANESSA
O que? Você é louca? Eu disse que eu vou embora e eu vou embora.

MARTA
Vanessa. Eu não consigo ver a Submissa de alguém sofrer. Você a mantem trancafiada bem fundo por um motivo. Você tem que fazer com que sua Submissa esqueça do seu grande desejo sexual. Só assim você controlará seus impulsos.

VANESSA
Pois eu vou libertar a minha! Por completo!

MARTA
Isso não pode acontecer! Impreterivelmente!

VANESSA
Meu último contato com a submissa foi incrivelmente excitante. Eu acho que ela me disse que eu devo seguir os meus desejos à força.

MARTA
Ela te beijou. E você ficou toda molhada.

VANESSA
Você tem me espionado? Olha, Marta, eu cheguei aqui e você me forçou a acreditar que eu deveria forçar a Submissa a se tornar um homem pra que eu me livrasse das bucetas no pensamento. As meninas você força a vê-la como mulheres pra esquecerem do caralho momentaneamente. Eu acho que no caso delas é mais fácil. Elas olham pra própria buceta todo dia e sentem falta do que não tem. Do vazio que falta naquele buraquinho. Eu não sinto falta desse vazio, Marta. Não quero coisas dentro de mim. O que eu quero é preencher o vazio de alguém. Entende? Eu sinto falta de enfiar a mão dentro de uma menina, sabe?

MARTA
Não devemos ser escravos dessa putaria, Vanessa. Quando as mulheres chegam aqui, tentando se livrar da fissura por um caralho, a Submissa aparece como um Macho. Porque é tudo no que elas pensam. Ela aparece com pêlos e com um caralho bem gostoso. Eis o desejo delas. Todo o desejo se transforma em pêlos e um caralho. A Andressa quando chegou aqui, por ser virgem, já a viu rapidamente como mulher – mas não creio que ela tenha o mesmo problema que o seu. Pra você ela aparece como mulher, pois é o seu desejo. Meu tratamento, Vanessa, tem a função de reverter o desejo por alguns dias, pois isso vai fazer com que você trate o sexo de outra forma. Com as outras, eu faço com que elas revertam o desejo para o sexo feminino. Isso não faz com que elas se transformem em lésbicas, mas que se vejam como ser divino. A mulher como um ser intocável e puro. E funciona. Logo os pêlos caem e o caralho é sugado pra dentro. E aí a vida na liberdade sexual fica maravilhosa, Vanessa. Você não é mais escravo de um desejo. O desejo se torna seu escravo. (pausa) A sua homossexualidade é um caso curioso, Vanessa. Não sei o que pensar. Acho que seria mais fácil se você gostasse de caralhos, porque eu já testei o tratamento milhões de vezes. Mas você é um desafio pra mim. Eu quero ver no que isso vai dar.

VANESSA
Você realmente acha que tem conserto?

MARTA
Vanessa, tudo tem conserto. Tanto a libertinagem como a homossexualidade. Não tô dizendo que isso é errado, mas que o mais correto é nos purificarmos primeiro. Transformar o nosso caralho de cada dia em um objeto. Eles nos usaram, agora somos nós que os usamos. O que eu preciso fazer aqui, Vanessa, é inverter seus desejos por um tempo...

VANESSA
Mas pra que?

MARTA
Porque é preciso. Maya deixou os ensinamentos assim, quando eu a vi. Você leu o meu livro.

VANESSA
Mas eu não entendo porque eu preciso mudar?

MARTA
É para um bem maior, Vanessa. Você entenderá. Tudo isso resultará numa transformação surpreendente. (pausa) Você sabia que a Maya e a Submissa pregam situações? Pra cada um. Elas colocam um desafio e depois realizam os desejos. Vocês precisam aceitar essa transformação, pra que depois vocês... vocês... é...

VANESSA
Pra depois a gente...?

MARTA
Pra que depois nossos desejos pedidos à Maya se realizem. É isso. Simplesmente isso.

VANESSA
Você nos deu veneno de cobra, Marta. Isso é uma coisa que devia ter avisado antes. Não tava no folheto, isso.

MARTA
Foi necessário. Você entenderá.

VANESSA
Eu acho que a Submissa precisa mais de mim. Da verdade de quem eu sou.

MARTA
Vanessa, você não é ninguém. Você inventa como sua Submissa vai ser e se inventa. Inventa uma máscara para todos.

(silêncio)

VANESSA
Marta, eu entendo o que você quer dizer. Mas eu tenho a escolha, não tenho? Você não precisa se preocupar comigo.

MARTA
Mas eu me preocupo com você.

VANESSA
Mas eu não quero que você se preocupe comigo, Marta. Eu quero ir embora. Eu fiz uma decisão e eu acho que meus pensamentos estão certos também.

MARTA
Não posso deixar você ir embora.

VANESSA
Marta! Eu estou pagando por essa buceta! Eu quero ir embora!

MARTA
Não posso deixar.

VANESSA
Por que diabos você se importa tanto com a sexualidade dos outros, caralho? Eu não quero mais tratamento nenhum!

MARTA
(carinhosa) Chiu. Em nome de Maya, tudo ficará calmo, Vanessa. É isso o que ela quer. Eu sinto isso. É tudo por causa de três caralhos que eu sonhei. Vai ficar tudo incrivelmente protuberante e grosso.

(black-out)

(um grito)


CENA IX

Um foco.

(Maya aparece; Submissa se contorce no oposto)

MAYA
Poderiam torna-la em desejo social
Poderiam torna-la em todos os formatos
Libertinagem é sede
Putaria é natural.
Ela vive dentro do nosso estômago
Aparece em nossas borboletas
Um vício camuflado em instinto animal.
O cheiro é sede
De caralhos e bucetas
De fantasias e desejos sobrenaturais.
É uma confusão sem fim entender-se e entende-los.
Deixe que os outros os entendam por si só
O cú, cada um nasceu com um.
Reprimir a própria submissão sexual é uma escolha qualquer
Reprimir a submissão sexual dos outros é uma filha da putisse
Divulgar um tratamento à confusão sexual com um fim concreto é outra filha da putisse.
O cú, cada um nasceu com um
O cheiro é sede
De caralhos e bucetas
Camuflados em instinto animal.
Tanto é problemático aquele que não se entende
Como aquele que palpita sobre o cú do outro.
A dificuldade de entender está dentro de cada um
E a resposta está jogada no vento
Deixe o cú do outro em paz, e deixe que cada um converse com o poder de seus hormônios e de seus desejos sozinhos.
Tenha teorias, tenha repressões
Mas que sejam teorias e repressões saudáveis
Para si mesmo
Sem hipocrisia e sem provações.
Tenha putaria, tenha sexo rotineiro
Mas que sejam putarias na teoria e com práticas de libertação inteligentes
E o mais importante, com responsabilidade e aceitação.
Livre-se do tratamento social
Livre-se da opinião alheia
Não existe palpite pro sexo do outro.
Cada um sabe o que arrepia o próprio cú.
Deseje e mantenha seu deus feliz
Consiga e realize

SUBMISSA
Dor. Dor. Água. Sede. Fome. Dor. Sede. (pausa) Partes baixas.

(Submissa vê Maya)

SUBMISSA
Maya! Maya! Maya!

MAYA
Filha.

(Maya entra na jaula e a abraça)

SUBMISSA
Maya, dor. Tesão. Dói.

MAYA
Não dói.

SUBMISSA
Dói. Dói! Buceta!

MAYA
(carinhosa) Chiu. Minha linda, acham que é tua culpa. Deram um nome para a culpa. Ainda sente-se uma culpa no fim no gozo. Uma culpa do sujo. Uma culpa do “não devíamos”. E as pessoas não entendem você, filha. Elas querem te reprimir. Cada um quer ser escravo de uma mentira inventada sobre você. Mas eu sei que a sua vontade deixaria o mundo mais lindo. E aposto que esse será o destino dos homens daqui um tempo, num futuro distante. Dos homens e das mulheres. A sua libertinagem, Submissa, é a salvação do mundo. Só você poderá nos salvar das repressões sexuais. Não existe uma culpa real. Isso é invenção paranoica que fez, por consequência, a hierarquia do caralho grande, e hierarquia da bunda mais passiva. E isso é uma merda. O machismo, o feminismo, tudo besteira. (pausa) Eu sou uma deusa. Você é uma deusa. Deusa demônio, como eles acreditam. E só por sermos do sexo feminino não devemos e não vamos reprimir o sexo masculino. Eles são tão excitantes e gostosos como nós somos. E somos muito mais que convenções. E como deusas e deuses, temos a função de espalhar o quanto a troca de energia não deveria ser reprimida. Sexo faz parte da magia do universo. É o momento onde dois se tornam um. E que às vezes esse um se torna um terceiro. Numa suruba, ou na maternidade. Quem decide qual dos dois finais é mais importante e puro?

(elas se beijam de língua; Maya abre as pernas de Submissa e beija sua buceta)

MAYA
Minha querida, fique bem. Eles não sabem o que fazem. Tudo é permitido quando se é com carinho e com vontade. Basta desejar.

SUBMISSA
(explica) Essa conversa não existiu. Só existimos na presença de um observador.

(black-out)


CENA X

A jaula

(Submissa está na jaula)

(Marta entra com Vanessa amarrada e amordaçada em uma cadeira de rodinhas)

MARTA
Vanessa, parte do tratamento tem como base a ideia do “oposto corrige”. Todos nascemos com a necessidade sexual ativa. Tornar ela positiva, porém inativa, é um processo muito longo e complicado. O tesão é igual a sede. É igual à um vício. Quanto mais envolvida com o sexo, mais a necessidade. Nossa luta, aquela que por que você me procurou, é nos livrar dessa escravidão e tornar o sexo uma coisa saudável e pura. Você é um tipo de caso diferente. As meninas me buscam tentando se livrar da submissão ao sexo masculino. Submissa faz todo o serviço por mim. Eu as coloco frente à um espelho e faço com que se apaixonem pelo próprio corpo. Pela própria buceta. E esqueçam o caralho para vencer a escravidão. Já você quer se livrar da buceta, a mesma buceta que você tem. (pausa) Submissa.

(com um jogo de luz, Submissa se transforma em um Macho; o Macho urra dentro da jaula e rasga toda a roupa)

VANESSA
(amordaçada) Não... não... por favor, Marta...

(Marta tira a mordaça de Vanessa)

VANESSA
Pelo amor da santa, Marta! O que você está fazendo? Eu não quero isso, por favor! Eu tenho nojo disso, por favor, Marta.

MARTA
Você precisa de um pouco de repugnância.

VANESSA
Repugnância à que?

MARTA
(insana) Não interessa! Eu preciso que se inverta!

(Marta obriga Vanessa a beber um líquido verde)

VANESSA
O que é isso? O que é isso?

MARTA
Gonadotrofinas coriônicas, progesterona, andrógenos e estrógenos. Veneno de cobra verde e corante.

VANESSA
Pra que isso, Marta? Eu exijo que você me solte!

(Vanessa repentinamente se explode de tesão)

MARTA
Pronto.

(Marta desamarra Vanessa que rapidamente tira a roupa; Vanessa se esfrega em Marta enlouquecidamente; Marta faz com que Vanessa beba outro líquido vermelho; Vanessa instantaneamente vidra no Macho; eles se grudam e transam selvagens; Marta sai)

(black-out)


CENA XI

O jardim.

(Lícia está sentada; Andressa entra)

ANDRESSA
Lícia, você viu a Vanessa?

LÍCIA
Não.

ANDRESSA
Tá pensando em quê?

LÍCIA
Em nada. Imagine se aprendêssemos a usar bruxaria, Andressa. Que louco que seria.

(silêncio)

ANDRESSA
Por que tá dizendo isso?

LÍCIA
Sei lá. Acho que nossos desejos se realizariam com mais facilidade.

(silêncio)

ANDRESSA
Eu acho que eu vou embora também, Lícia. Não vou conseguir o que eu quero aqui na ilha.

LÍCIA
O tratamento ainda não acabou.

ANDRESSA
Será que a Marta sabe mesmo o que está fazendo?

LÍCIA
Ela se livrou. Ela não cai de boca num caralho qualquer mais. É uma luta.

ANDRESSA
Qual será que é o problema de cair de boca num caralho qualquer?

LÍCIA
Eu não sei. Mas eu gozo e eu sinto uma culpa. Às vezes eu tento nem gozar pra continuar no tesão.

ANDRESSA
Por que tudo isso, Lícia?

LÍCIA
Eu sei lá. Eu quero me livrar disso. E eu gosto tanto de pêlos, sabe. Eu gosto tanto de sentir aquela pulsação quente e grossa dentro da gente. Sabe? Você não sabe como é. A gente se transforma em um. O foda é que eu não me contento com um só. Eu não sei investir num único amor. Eu quero vários. O tempo todo. Eu conheço um homem e eu já fico imaginando como é o seu caralho. Eu queria me livrar disso.

ANDRESSA
Hum. É muita guerra dentro da gente.

LÍCIA
É muita guerra. Chega a doer. E aí a Submissa está a maioria das vezes na minha mão. Mas esses últimos dias ela tem me atentado forte. A Marta me ajuda a contê-la.

ANDRESSA
Como?

LÍCIA
Com um choquinho.

ANDRESSA
Nossa, que horror! Eu cheguei aqui e a minha já aparecia como mulher. A Submissa não me atenta. Será que eu sou assexuada?

LÍCIA
O que é isso?

(silêncio)

LÍCIA
Olha, do tempo que eu tô aqui na ilha, eu consegui ficar todo esse tempo sem um caralho de verdade. Sem a Submissa me atentar. A última vez que ela me tentou ela apareceu com um caralho. De mulher com caralho. A Marta me salvou. Foi estranho.

ANDRESSA
Lícia, eu estive pensando, tudo bem se você quiser reprimir seus desejos, sabe? O problema é se isso se tornar uma guerra. Se você tem algum propósito bacana pra se manter sem sexo, tudo bem, é legal. Mas se tudo diz que você devia ser uma puta, não vejo qual seria o problema.

LÍCIA
O problema tá aí. Como você disse. Eu seria reconhecida como puta somente.

ANDRESSA
O foda é o que os outros vão pensar.

LÍCIA
Exatamente.

ANDRESSA
Estamos no retiro errado, então. Devíamos ter procurado um auto-ajuda qualquer.

(silêncio)

LÍCIA
O que eu faço, Andressa? O que eu faço? A Marta não vai permitir que a gente vá embora no meio do tratamento.

ANDRESSA
O que? Como assim não vai permitir?

LÍCIA
Ela não vai deixar.

ANDRESSA
Eu vou embora a hora que eu quiser.

(Marta entra)

MARTA
Vocês ainda não terminaram, Andressa.

ANDRESSA
Escuta aqui, Marta...

MARTA
Você é uma menina inteligente, Andressa. Se saiu muito bem todo esse tempo.

ANDRESSA
Eu me saí bem porque eu nunca fiz sexo, não é? Você reprime todo mundo aqui dentro.

MARTA
Você foi mais esperta que todas nós juntas. Se guardou. Você vai ver como tudo vai soar mais bonito logo mais.

ANDRESSA
Olha, Marta, eu procurei esse lugar pra entender um pouco mais sobre a espiritualidade da ilha. Sobre Maya e sobre a Submissa. E eu já descobri. Eu vi a Maya, Marta. E ela era morena. Eu não sei se devemos tentar reprimir um desejo por uma convenção social.

MARTA
Andressa, não estamos aqui pra reprimir nenhum desejo sexual. O tratamento exige essa repressão pra depois o sexo se tornar uma coisa controlada.

ANDRESSA
Então não existe vontade de tirar o desejo da Vanessa de ser homossexual? O que é isso?

MARTA
A Vanessa é outro caso...

ANDRESSA
Não existe vontade de deixar a Lícia babando de saudade de um caralho? Quem deu o direito a você de controlar o sexo dos outros? E comigo? Vai fazer o que? Me forçar a sentir tesão? Ah, a coitadinha é virgem e precisa mudar isso logo!

MARTA
Eu faço isso para ajuda-las! Vocês me procuraram pedindo ajuda. Pra tirar essas confusões. O folheto explicava bem qual era a intenção. Você leu me livro!

ANDRESSA
Mas a pergunta é: por que diabos você divulga um tratamento pra essas coisas? De onde surgiu esse retiro? Por que você se importa?

(silêncio)

MARTA
Por que eu me importo? Porque eu me importo, oras! Eu penso no bem maior! Olha, escute aqui...

ANDRESSA
Ah, você acha que está fazendo uma boa ação! Eu juro que por uns segundos eu achei que fosse pelo dinheiro.

MARTA
Eu não preciso de dinheiro. Eu sofri pra caralho com meu tesão sexual, ok. A Submissa me atentou a vida inteira. E eu aprendi como controla-la. Eu aprendi. A Maya me mostrou como revertê-la. Eu decidi divulgar o método. Você leu meu livro. Se você soubesse de uma grande resposta pra nossos problemas você não divulgaria?

ANDRESSA
A Maya te mostrou o método. E ela era loira.

MARTA
Era. E brilhava.

ANDRESSA
Pra mim, ela apareceu morena.

MARTA
Disso eu já não sei.

ANDRESSA
Será que ela não dá a resposta que cada um precisa?

MARTA
Oi?

ANDRESSA
Será que o método não deve funcionar com você, porque foi o que você pediu. A resposta para seus problemas vieram de você mesmo e só pode resolver os seus problemas! Será que para os homens que acreditavam que ela era só homem, ela realmente não era só homem? E pra mim, que ela apareceu morena. Pra mim, ela me dá uma resposta. Pra você outra. Será que ela não se contradiz nunca? Nós que a nomeamos. E que nomeamos a Submissa. E que as limitamos. E a culpamos. Eu acho que o mais importante agora é deixarmos em paz a Submissa do outro e deixar a Maya falar com cada um deles. E deixar que Maya dê a resposta que cada um precisa ouvir.

LÍCIA
Eu também quero ir embora, Marta.

MARTA
Vocês não podem. Os ensinamentos não são só com base nas minhas experiências, mas com base nas experiências de todos da congregação. Somos muitos, Andressa. Esse estudo foi longe. Vanessa...

ANDRESSA
E aí foi juntado tudo o que foi coincidência nas vidas de uns desconhecidos e escritos num livro. Escritos como ordem e regra concreta.

MARTA
O que juntou-se, foram as estatísticas das aparições de Maya. E as coisas que batiam entre os que falavam que a viram. Vocês acham que eu estou mentindo?

ANDRESSA
Então só ouviram aqueles que falaram que ela era loira e brilhante. Em outro lugar uma índia pode ter visto ela como uma onça alada. Mas onça alada não deve ser a Maya. Não é? Então é quem? É o que? Alguém pode ter ouvido uma resposta de um homem? Ou de uma luz? Nós a nomeamos como Maya. E ela deve dar as regras no vento de cada um, eu acredito. As regras e os desafios pessoais e intransferíveis.

MARTA
A Submissa nos confunde o tempo inteiro.

ANDRESSA
Oras! Nós vamos embora.

LÍCIA
Eu tenho a chave.

MARTA
Vocês não podem! Já está prestes a acontecer! O efeito do veneno.

ANDRESSA
O efeito de que?

LÍCIA
O veneno. Das cobras.

ANDRESSA
O que esse veneno vai fazer, Marta?

MARTA
Sozinho ele mataria. Mas eu misturei.

ANDRESSA
Misturou com o que?

LÍCIA
Com testosterona. Eu mesma misturei.

ANDRESSA
O que? Pra que?

LÍCIA
Ela disse que isso vai nos curar, Andressa.

ANDRESSA
Marta, o que essa porra desse veneno vai fazer na gente?

MARTA
Vai ser do caralho.


CENA XII

(Andressa está completamente nua; Submissa e Macho Submissa entram e a estupram calmamente, de todos os jeitos possíveis)

(Lícia aparece amordaçada frente à imagem grande de uma buceta)




CENA XIII

A jaula.

(Submissa e Macho Submissa estão em pé imóveis; Marta entra)

MARTA
Querida.

(ela abre a jaula e os acaricia)

MARTA
Minha querida.

SUBMISSOS
Água.

MARTA
Sim, sim. Fique tranquila. Tudo já passou. Já está quase concluído.

SUBMISSOS
E as outras?

MARTA
As outras em breve serão outros.

SUBMISSOS
Bu.

MARTA
Fique tranquila. Será magnífico.

(um foco destaca Macho Submissa)

SUBMISSOS
Gonadotrofinas coriônicas, progesterona, andrógenos e estrógenos. E veneno de cobra verde. Testosterona. E veneno de cobra vermelha. X e Y. X e Y. X e Y. Corantes. Eis uma poção surrealista. De um buraco elástico para uma protuberância roliça. De uma cavidade para um caralho. Eu sou a coisa mais incompreendida no mundo. E a mais reprimida e utilizada ao mesmo tempo. A mágica é real na fé, em todos os pontos. Até no sexual.

MARTA
Maya! Estou pronta!

(silêncio; Maya e Macho Maya entram e agradecem com a cabeça)

MARTA
Todas invertidas. A vadia, agora vê Submissa como mulher e vive à base de bolacha água e sal e buceta. A homo chupou e deu pra um caralho grande. E a virgem finalmente foi furada por todos os buracos e gênero. Invertidas do que foram. E o veneno das cobras verde e vermelho.


(as luzes se acendem e Vanessa, Andressa e Lícia estão com as pernas arreganhadas cobertas com um lençol branco em uma maca; elas gritam de dor)

VANESSA
Que merda é essa? Me tira dessa porra!

ANDRESSA
Marta! Ah!

(Lícia chora desesperada; Marta dança enlouquecida)

MAYAS
O objetivo nem importa. Você pediu, você fez, você conseguiu.

MARTA
(grita) Eu consegui!

SUBMISSAS
Bruxarias entortam a linha tênue do nosso estado. Bucetas se transformam em caralhos no fim do resultado.

(pela sombra do lençol percebe-se que um caralho nasce em cada uma)

(black-out)


CENA XIV

(um foco mostra Marta nua entre dois homens que chupam seus peitos enquanto ela os masturba; um terceiro, se satisfaz com um dos outros dois homens)

FIM







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